Um artista santa-mariense retornou à cidade para uma apresentação. Gustavo Assis-Brasil é formado em violão clássico pela UFSM e vive nos Estados Unidos desde 1999, ano em que foi cursar mestrado em Jazz no país. Residente em Boston, Gustavo atua como músico e professor, fato apontado por ele como uma das diferenças entre docentes no Brasil e nos EUA – enquanto aqui há professores dedicados somente à academia, nos EUA a maioria dos professores de música também produzem no mercado musical. Ele dirige o departamento de Jazz e Música Contemporânea da Cambridge School of Weston, dá aulas no Guitar Session, na Berklee College of Music, tem projetos musicais solo e também com outros artistas.

Gustavo veio ao Brasil para o projeto “Músicos do RS no mundo”, promovido pelo SESC-RS e pela Discoteca Pública Natho Henn da Secretaria de Cultura do Estado. No projeto, ele faz uma turnê em quatro cidades gaúchas: Santa Maria, Porto Alegre, Pelotas e Bento Gonçalves. Para os shows, convidou músicos amigos: Julio “Chumbinho” Herrlein (guitarra), Matheus Nicolaiewsky (baixo) e Bruno Tessele (bateria). No dia 13 de julho, apresentou-se no Theatro Treze de Maio com os outros artistas que compõem a turnê, após uma palestra sobre sua trajetória profissional. No dia seguinte, os músicos ministraram uma oficina sobre improvisação no Jazz.

Guilherme Barros (convidado especial), Bruno (bateria), Matheus (baixo), Gustavo e “Chumbinho” (guitarra) no Treze de Maio.

Macondo Coletivo: Como é a cena do jazz hoje nos Estados Unidos?
Gustavo Assis-Brasil: É bastante dinâmica, principlamente se comparada à cena no Brasil. No eixo New York-Boston, por exemplo, existem inúmeros bares e clubes que se dedicam a receber artistas e divulgar esse estilo de música em particular, além da música instrumental em geral. É sempre bom lembrar que o Jazz tradicional ou puro, como alguns preferem chamar, está cada vez mais cedendo lugar ao fusion, que seria uma mistura do Jazz com outros estilos.

O jazz surgiu atribuído a manifestações populares. No Brasil, o gênero não é, entretanto, popularizado e encontra certa identificação com gêneros eruditos. O jazz é um gênero musical que foi elitizado?

Sim, acredito que no Brasil essa seja uma visão recorrente, mas não acredito que ela condiza com a realidade necessariamente. Se você for a New Orleans, por exemplo, vai ouvir Jazz a cada esquina, sempre executado por músicos que muitas vezes nunca tiveram uma educação ou treinamento musical acadêmico. Aqui no Brasil, muitas vezes temos essa ideia de que o jazz é um estilo mais requintado, mas na verdade essa impressão nos é causada por esse ser um estilo bastante desconhecido por nós brasileiros. Não digo que não exista complexidade no jazz, mas de uma certa forma, os americanos crescem ouvindo jazz, o que torna o estilo mais natural para eles. Nós, brasileiros, temos uma variedade de ritmos que tornam nossa música bastante complexa para qualquer americano. “Às vezes eles passam anos estudando os ritmos brasileiros, e nem por isso o samba deles deixa de ser meio quadrado“. Para nós, o samba está no sangue, enquanto que para os americanos ele até pode ser visto como um ritmo difícil e requintado, por não ser “natural” para eles; por não fazer parte do repertório deles. O jazz para os americanos, é o nosso samba às avessas.

Muitos músicos não tem formação acadêmica ou estudaram em institutos voltados à prática musical. Qual a importância, hoje, do estudo formal na música?

Eu acho que muitas vezes, a música não é reconhecida como profissão. Qualquer pessoa que saiba tocar um instrumento se diz músico. Isso acontece com muita frequência no Brasil, onde a profissão – de acordo com minha experiência – ainda sofre certo preconceito. Um músico completo, um profissional da música, tem que ter formação, tem que saber ler, compor e saber transitar entre diferentes estilos musicais. Ninguém se diz médico se não tiver um título. Para mim, a música deve ser vista da mesma forma.

Muitos críticos dizem que não há mais bons músicos atualmente e que a criação musical está estagnada. Como você vê a produção musical atual? Há somente repetição de fórmulas prontas?

Volto ao ponto anterior: o problema é que muita gente que gosta de brincar de fazer música se auto-intitula músico. Existem movimentos sociais que usam a música como seu instrumento de divulgação, mas isso não basta para fazer música de verdade. A chamada indústria “musical” se aproveita muito também da falta de cultura musical do povo, em qualquer parte do mundo. Produtores elegem pessoas – e essa seleção, na maioria das vezes, não tem nada a ver com o talento musical dos mesmos – e investem fortunas na promoção de um álbum. As composições são encomendadas e os computadores fazem a execução quase que completa das músicas. O “artista” muitas vezes só empresta sua imagem. Isso, para mim, não é música, mas sim um simple produto comercial. Se alguém quiser chamar isso de música, dai sim vamos ter que concordar que a criação e o talento musical estão em crise. Agora, se formos analisar o trabalho de músicos verdadeiros, vamos ver que a realidade é bem outra. Existem artista maravilhosos surgindo todos os dias, mas que não ficam famosos porque sua música não segue o modelo “dois acordes”.

Gustavo Assis-Brasil: "Um músico completo, um profissional da música, tem que ter formação, tem que saber ler, compor e saber transitar entre diferentes estilos musicais. Ninguém se diz médico se não tiver um título. Para mim, a música deve ser vista da mesma forma."

Você encontra, na página do Facebook do Macondo Coletivo, mais fotos da apresentação de Gustavo Assis-Brasil no Theatro Treze de Maio.

Texto: Bianca Riet Villanova

Fotos: Gabriela Belnhak

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Associação de Produtores Independentes Macondo Coletivo.

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