Tom Pessoa, 23 anos, cursa Filosofia Licenciatura na UFSM e trabalha como bolsista de iniciação à docência na Escola Augusto Ruschi. Nasceu em Sobradinho, mas cresceu e viveu parte de sua adolescência em Salto do Jacuí.

Podemos dizer que a música faz parte da vida de Tom antes mesmo de ele ganhar seu primeiro violão, um agrado do pai. Graças à irmã conheceu bandas como Kiss, Legião Urbana e Guns N’ Roses, mas foi com um presente da avó que conheceu Nirvana, uma de suas grandes influências.

O interesse e as escolhas certeiras

Tom Pessoa: Lembro de ter ganhado de aniversário um “vale CD” da minha avó. Fui à loja e encontrei poucas opções de discos de rock. Fiquei entre um disco do Charlie Brown e um do Nirvana. Nessa época eu já tinha certa curiosidade por coisas mais alternativas. Escolhi (ainda bem) “Bleach”, do Nirvana, o primeiro deles e o melhor na minha opinião. Acho que esse momento veio a definir todas as minhas escolhas posteriores, pois a partir daí comecei realmente a formar um gosto musical e a buscar sempre as coisas mais “estranhas”, mais lado B, digamos.

New dogs on the top

TP: Com 15 anos eu queria ter uma banda chamada “Holocausto” [risos], mas foi com 16 que tive, de fato, minha primeira banda. Chamava-se “New dogs on the top”, um trocadilho para “New kids on the block” eu acho. Naquela época eu não sabia por que fazia as coisas, apenas fazia. A banda era ótima. Eu era só vocalista e cada um dos quatro integrantes desempenhava muito bem sua função. Foram bons tempos. Tocávamos covers e chegamos a fazer uns três shows em Salto do Jacuí. Quem viu ainda se lembra.

Influências: as paixões

TP: Cronologicamente falando, tenho como primeira grande influência o Nirvana. Ainda hoje me arrepio com tudo o que eles fizeram. Agora, vou fazer uma confissão: chorei lendo “Heavier Than Heaven”, a biografia do Kurt Cobain, escrita pelo Charles R. Cross. Em 2003, ganhei de Natal o “Elephant” dos The White Stripes. Essa foi a minha nova paixão, isso dura até hoje obviamente. A partir daí comecei a buscar todas as bandas contemporâneas ao TWS, mas nenhuma delas jamais me afetou daquela forma. Depois, naturalmente, fui ver alguma coisa do blues, do punk, passei pelos grandes clássicos do rock, como Velvet Underground, The Kinks, The Doors, Os Mutantes, Secos e Molhados e toda essa turma. E como poderia deixar de citar o Tom Zé? Enorme influência. Jeff Buckley, arrepiante! Tive boas paixões por Pixies, The Libertines, Flaming Lips, System of a Down, Faith No More, Radiohead.

Influências: as musas e os amores recentes

TP: Também não posso deixar de citar as minhas musas: Janis Joplin, Edit Piaf, Elis Regina, Ella Fitzgerald, Bjork, PJ Harvey, Rita Lee, Cássia Eller, Alina Orlova e Joanna Newsom. Recentemente andei flertando com alguns adoráveis malditos; geniais em suas singularidades. Tem o americano Daniel Johnston. Os brasileiros Damião Experiença, Sérgio Sampaio e Rogério Skylab. O menino Yoñlu (nó na garganta). Eu atravessaria o país para assistir a um show dele. Certamente seria um artista de peso se não tivesse desistido. E agora puxando para perto, para falar dos shows que eu vi e que de alguma forma passaram a me influenciar. Tem a incrível Bandinha Di Dá Dó (já vi quatro vezes e não me canso), tem também o Proyecto Gomez e O Lendário Chucrobillyman. São esses os artistas que me alimentam, me fornecem elementos para conceber o meu trabalho. De alguns eu gosto do humor, de outros da agressividade, da simplicidade, dos conceitos, do tipo de poesia, da escatologia, da estética, das atitudes. E assim eu vou tentando fazer colagens dentro das minhas limitações. Evito imitar e busco desconstruir.

Os conflitos e as criações

TP: Para falar das letras preciso falar um pouco sobre o processo de criação como um todo. O meu trabalho de estréia, Plumas Paralaxes, abrange um período de tempo da minha vida que vai de2006 a 2009. Nesse tempo, passei por grandes crises existenciais e consequentemente enormes mudanças vieram. Passei no vestibular e comecei a cursar Engenharia Florestal. Detestei tudo e parti para um novo vestibular, agora para Filosofia. Eu queria estar perto das ideias, do pensamento, das artes.

Essa paixão pelo curso começou em 2006, quando tive, pela primeira vez na vida, uma verdadeira aula de Filosofia, com a professora Gisele Secco. Ela chegava à sala de aula, cantava algumas músicas (cantava bem) e começava sua aula. Eu me apaixonei por ela e pela Filosofia [risos]. Eu precisava desse tipo de inspiração e hoje posso dizer que foi uma decisão acertada. Encontrei o que eu queria, ou seja: mais crises, mais conflitos, mais rupturas, o caos ideal para que eu pudesse criar à vontade [mais risos].

Plumas Paralaxes

TP: As letras do Plumas falam de conflitos comigo mesmo e com o resto do mundo. As desilusões políticas. O desespero diante da vida. Em algumas canções é possível notar uma espécie de eco-pessimismo. Isso manifesta certo sentimento de irremediável, sabe? São tantos absurdos, tanta dor, tanta insanidade. O que fazer? Se tornar um idealista? Um homem de convicções? Passar uma vida perdendo tempo com as nulidades da luta política? Não sei. Acho que não tenho forças pra isso. A única coisa que eu consegui fazer foi expressar todas essas angústias através da música. Esse é o maior investimento que eu posso fazer. Cantar as minhas cóleras. Gritar os meus delírios. Musicar as minhas lamentações, os meus fracassos, os meus erros, as coisas que eu odeio em mim.

As composições

TP: “Sophia” é uma vinheta sobre a loucura. E aí eu começo a contar uma estória, ao longo das outras 16 canções. A maioria das letras já surgiu junto com as melodias. Meu processo de criação é o improviso puro. Ligo meu gravador NKS Sound made in China e toco, berro, converso, divago, rio. A letra de “Pares”, por exemplo, já nasceu pronta; não mudei uma palavra sequer desde a primeira versão. Há também uma canção chamada “Pulgas e Chacais” que não tem letra, pelo menos em uma língua inteligível. Eu costumo dizer que ela é cantada no dialeto paralaxiano. Não tive capacidade de colocar uma letra em português, e gostava das marcações vocais que havia feito, então lembrando um pouco do Tom Zé em “Danç eh sá”, do Mike Patton com o Fantômas e também do Sigur Rós, resolvi deixar essa canção em dialeto mesmo. Em alguns casos, as palavras não são necessárias, muito menos suficientes. O ponto de partida sempre é algo do cotidiano. Como no caso de “Prozac”, onde eu falo sobre o dia em que eu saí desesperado pelas farmácias de Santa Maria em busca de algo que me fizesse melhorar, esquecer as coisas, eu queria apagar mesmo [pausa]. Acho que se fosse para definir o Plumas em uma palavra, eu diria “entrega”. É um salto no abismo. E eu não sei aonde isso vai dar.

As apresentações

TP: Com o projeto Plumas Paralaxes já me apresentei três vezes. Duas vezes em dezembro de 2010, na abertura de um evento da Filosofia e na festa de aniversário do Práxis pré-vestibular, que aconteceu na Catacumba do DCE. A terceira apresentação foi agora em maio de 2011, no Boteco do Rosário, dentro da programação do Mercado das Pulgas [vídeo abaixo]. Foram apresentações bastante toscas na minha opinião. Mas, apesar de algumas limitações técnicas, operando na base do improviso, da precariedade e do empréstimo; considero que foram valiosas experiências, pois eu cheguei a pensar que nunca conseguiria mostrar o meu trabalho, e isso está começando a acontecer, então fico feliz e agradeço às pessoas que me permitiram cometer esses primeiros erros.

Os próximos (com)passos

TP: Quero mostrar o meu trabalho. Quero criar as condições para fazer melhores shows. Quero formar uma banda, porque as músicas do Plumas foram feitas para serem tocadas com o instrumental completo e não somente com violão e voz, como eu venho fazendo. Enquanto essas coisas não acontecem, eu trato de ir fazendo o que é possível no momento. Estou regravando a demo, com três intenções: fazer um registro melhor que o que foi feito em outubro de 2010, disponibilizar o material (canções e letras) no MySpace e enviar as canções para alguns produtores. Vai que algum maluco por aí resolva abraçar o projeto! Também estou digitalizando todas as fitas cassete (acho que são vinte ao todo), isso vai me permitir manipular à vontade todo o material bruto que ainda tenho que lapidar. Acho que já tenho material para um segundo trabalho. Mas isso é outra estória.

O foco agora é o Plumas, só vou considerar esse trabalho finalizado quando conseguir gravá-lo como quero, e isso pode levar ainda algum tempo. Até lá “vou mostrando como sou, e vou sendo como posso”. É isso! Poder viver de arte seria maravilhoso. Mas ter os pés no chão, mesmo que se esteja arriscando tudo, é importante.

Texto: Gabriela Belnhak

Produção: Gabriela Belnhak e Biba Campos


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Sobre Macondo Coletivo

Associação de Produtores Independentes Macondo Coletivo.

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  1. Fala Tom,
    sou professor de Filosofia (formação pela UNESP – Campus de Marília) e percussionista de vários projetos, com dedicação especial para a “Johnny Sue Band”, de indie-folk. Passei por aqui por conta das aproximações na formação e nos gostos. O blog da Johnny Sue: http://www.johnnysue.blogspot.com

    Abraço,

    Cássio de Fernando
    Araraquara – SP

  2. Anônimo disse:

    Hey Cássio,
    Vou conferir o blog.

    Abraço forte!

    Tom.

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