Olhos de Kareka Ricordi…

Atrás das cortinas a 15 minutos do início do espetáculo eu já não via nada além do piso do palco refletindo a luz da televisão. Ouvia um burburinho de pessoas que estavam ali para assistir à estreia da peça. Não sentia frio na barriga em nenhum momento dos dias incansáveis de ensaios e edições de vídeo. Acostumado com a atuação da banda e dos atores, a emoção dos ensaios tinha esfriado um pouco. Ainda não tinha visto a luz do Bando e nem a percussão do Alemão. Éramos expectadores incompletos. Tudo se juntou somente naquela hora. A hora em que o frio na barriga apareceu e o suspiro de tensão saiu do peito. Os primeiros acordes começaram a relaxar os ombros , e a concentração nos vídeos foi o que coube a mim. A partir daí, foi ver o palco, a Luise, a Cláudia e o Tiago atuando. O burburinho se transformou em olhos atentos, presos a um espetáculo inédito, com técnicas e elementos inéditos, com textos lidos por poucos. A tensão da sincronia dos vídeos com a Carol foi consatante. O que vi do meu esconderijo foram todos os elementos atuando juntos. Olhares, respiração, suor e água. Não cabe a mim interpretar algo que ajudei a criar. Deixo a outros cinco olhares atentos que descrevam o sentimento que os envolveu, alguns em texto e outros em foto, como a Nathália Schneider e o Lucas Baisch.

 

…olhos de Andressa Quadro…

“Como se calar diante do que aconteceu ontem à noite no Theatro Treze de Maio? Música, teatro, dança, literatura, audiovisual, performance e arte visual encaixando-se perfeitamente, como as arestas brancas que perfeitamente eram encaixadas em cena formando um paralelepípedo. O que aconteceu foi um espetáculo de artes que integradas  deixou o público se não emocionado e boquiaberto no mínimo reflexivo. Como não sair de lá e tentar compreender se a beleza do que acabou de ver estava em todo o conjunto ou nos pedaços que o compunham? Ou se simplesmente causou estranheza e por isso mesmo se tornou belo? Ainda estou emocionada, boquiaberta e preciso refletir um pouco mais.”

 

… Igor Müller …

“Eram três indivíduos, duas mulheres e um homem no palco do Treze. Isolados, cada um com seus pensamentos e angústias. Juntos vão construindo, aos poucos, uma estrutura sólida com peças que vão se encaixando perfeitamente e se ajustando. Nesse processo, vão se desfazendo daquilo que os atormenta, como a água que estoura no palco. Se ajudam, tomam as dores do outro, sofrem e vivem ao sabor da música que embala e complementa cada cena. Histórias, anseios, angústias de cada um que formam, juntos, um lugar seguro. Mas mesmo ali é necessário se libertarem. Em busca da sensação que os três precisam, então, se desfazem do que construíram e vão à busca de algo mais. Juntos. Essa união não se trata apenas da minha interpretação do enredo. Trata-se, também, do processo de criação do espetáculo. É encenação, dança e luz. E é mais: é música, é vídeo, é arte. Uma performance. Um espetáculo. De textos isolados, surge uma criação coletiva que, no decorrer do caminho, vai agregando outras linguagens e outras visões. Uma obra aberta e única. Algo que, no mínimo, nos convida à reflexão.”

 

… Sarah Quines…

“Um corpo que cai. Como a água que escorre do saco plástico, também a vida escorre pelas mãos.Vai aos poucos, e enquanto se esvai, torna a mente inquieta. Nas telas, um ventilador gira, os carros passam nas ruas, e os olhos estão fechados. No palco, três corpos se movimentam e se apoiam na desconstrução do ser. A música dá o ritmo dos passos. Entre os limites de um cômodo sem paredes, o corpo se debate em pura angústia…até que, da janela, aparentemente fechada a princípio, surge um sopro do mundo lá fora, uma fresta de liberdade. A água que ficou no chão é um pouco da vida que se perde todo dia que passa. Mas é também o frescor ao entrar em contato com a pele, uma nesga de livre-arbítrio. É o tato com o outro que desconstrói as barras do cômodo, e reconstrói o ser. Por trás das cortinas, diferentes frentes do Macondo Coletivo possibilitaram a construção do espetáculo “Quando fecho os olhos”. Artes visuais, teatro, literatura, audiovisual, música. Reunidos num momento onírico. Ao contrário do nome da peça, o público manteve os olhos abertos.”

 

… Bianca Villanova…

“Quando fecho os olhos, sinto.
No começo, o toque. Seria desejo ou certo desespero amparado no corpo alheio? Os corpos se sustentam, se ajudam, se
reúnem. Nas telas, imagens complementares e instigantes: passado, presente ou futuro? Após o estado de certa letargia, de olhares vazios, vem o desespero, a quebra, a ruptura. Cada um se desfaz, seja por desespero próprio ou por tentar amenizar a dor dos outros. Aqui o personagem encontra a literatura, que encontra o ator e faz a arte. Um clímax de agonia e angústia toma o palco. É o corpo que se joga ao chão, é a essência que é rasgada e espalha-se, é a própria fonte que serve como meio para o fim. A música embala o ritmo dos atores: é suspense, raiva, calmaria. Após o êxtase, a perplexidade. Quando tudo se acalma, nota-se a profundidade dos atos. E a urgência do agir. Mãos determinadas montam a estrutura. Após tentativas que não se encaixaram, a forma geometricamente perfeita é encontrada. Escafandro, casulo? A ligação entre os três é retomada. É música, arte visual, teatro, audiovisual: integram-se, todos. Os atores passam a estrutura ao público, que a recebe de mão em mão. Quem esteve lá pode sentir-se no cubo: prisão dentro de uma estrutura vazada? Liberdade? Quando fechamos os olhos, sentimos.”

 

…olhos de Lucas Baisch e Nathália Schneider…

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Sobre Macondo Coletivo

Associação de Produtores Independentes Macondo Coletivo.

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  1. Silvana disse:

    Lindo post, pessoal! Bah! Compartilho de muitos comentários tão lindamente aí colocados. Parabéns pelo texto e pelas fotos.

  2. Graciane Pires disse:

    Parabéns pessoal, fiquei com vontade de ver o trabalho ao ver as fotos. Vida longa ao espetáculo. Abração.

  3. Mona disse:

    Galera que ótimo ver vocês juntos… tomara que assista em breve. merda a todos e saudades

  4. Maurício disse:

    Curiosíssimo….
    beijos e evoé!

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