A anulação do intermediário. A morte do crítico. Muito se ouviu no Congresso Fora do Eixo sobre o fim dos mediadores nos processos de produção cultural e especialmente na comunicação. Neste contexto, não há como não pensar no jornalista, profissional que se legitima, em grande parte, pelo papel de mediador que exerce entre as fontes de informação e a sociedade. Num mundo em que todos podem ser “cidadãos multimídia”, emissores, comunicadores e produtores de informação, o jornalismo busca se reinventar, se autoavaliar e se retransformar para acompanhar a velocidade das mudanças trazidas pelas novas tecnologias, primordialmente.
Nessa leva, discursos de profunda crise do jornalismo atua, exercido pelos grandes meios de comunicação, provocam o exercício de discussão sobre novas práticas, novas perspectivas na produção de comunicação, que já estão em curso, já estão acontecendo, talvez em outros espaços à margem dos meios de massa.
No Seminário sobre jornalismo cultural, realizado durante o IV Congresso Fora do Eixo, jornalistas, produtores e agentes do FdE falaram sobre comunicação, jornalismo, cultura, circuito , música, entre outros assuntos.
Pedro Alexandre Sanches, editor do site jornalístico sobre música brasileira, Farafofá, afirma que é possível e necessário construir um jornalismo que seja mais propositivo, que queira crescer junto com o Brasil. “Precisamos construir um novo tipo de jornalismo. Como fazer isso, como sair do vício, dos polemismos vazios?”, questionou.
Bruno Torturra, editor de redação da revista Trip, observou que o jornalismo cultural brasileiro ainda lê cultura como se fosse arte, deixando de contextualizar o produto e os artistas no seu tempo, na sua cultura. O músico que só se preocupa com seu produto, “sua arte”, por exemplo, estaria fazendo entretenimento e não produzindo cultura. “Acredito que o jornalista perdeu a ideia de que cultura não é só musica e cinema. Qual é a estrutura de ideias que está por trás de uma manifestação artística? É preciso olhar para o processo que estamos inseridos e não só para o produto cultural oferecido” .
Nesta discussão sobre conceito de cultura, Pedro Sanches também acrescentou que o jornalismo cultural costuma tratar dos produtos e não da arte e da cultura de forma mais abrangente. A cultura está na música, no movimento, na política, no contexto de um produto artístico.

Alex Antunes, Lino Bochini, Torturra, Pedro Alexandre, Eduardo e Israel no Seminário sobre Jornalismo
Fora do Eixo – para além da comunicação institucional e da propaganda
A produção de comunicação no Circuito também foi discutida no Seminário. Torturra disse que a experiência do Fora do Eixo na comunicação é interessante porque está alinhada com a cultura contemporânea, que é digital, interconectada e em rede.
Os jornalistas apontaram, no entanto, que essa comunicação do FdE pode ser mais que um simples núcleo que faz assessoria de imprensa e divulgação institucional. Diante dos tradicionais e quadrados modelos de comunicação do mercado, o Fora do Eixo tem condições de ser um produtor de jornalismo. A Pós TV, por exemplo, tem potencial para ser um meio de comunicação criativo e mais antenado com os comportamentos de consumo de informação que se relacionam a um espectador ou leitor que é ativo na rede em que está conectado, interagindo, compartilhando e participando do processo comunicativo. “A Pós TV propõe uma audiência ativa de fato, que não existe na tv tradicional; Na Pós TV, o internauta é parte da construção, ele tem voz e compartilha”, destaca Torturra, acrescentando que num streaming de três horas, por exemplo, os assuntos podem ser aprofundados. “É importante tentar coordenar essas ações da pós tv e do streaming com uma proposta jornalística. ”.
O jornalista Alex Antunes também ressaltou que vê na Pós Tv um potencial de veículo que confronta com a caretice da televisão tradicional; ela teria uma linguagem mais coloquial, informal, flexível, e por isso, inovadora.
Os convidados do Seminário, de forma geral, afirmaram que o Circuito Fora do Eixo precisa pensar em produzir mais reportagens, sair do opinativo e da comunicação “chapa branca”, para descobrir coisas novas e quem sabe até pautar a grande mídia. Substituir a crítica, pura e simples, pelo trabalho da reportagem com viés crítico.
Israel do Valle destacou que um dos grandes desafios do Fora do Eixo é inverter a lógica das grandes corporações com modelos de comunicação que não dependam dos mediadores reconhecidos da mídia tradicional para que tomem uma proporção maior. “Qual é a forma de comunicação que o Fora do Eixo pode criar para se relacionar mais rapidamente com a sociedade?”, questionou.
Eduardo Nunomura, também editor do Farofafá, acrescentou que a produção de comunicação nas redes, como no Fora do Eixo, fica muito restrita e não reverbera na sociedade como deveria. “Entendo que a matriz do jornalismo é fundamental para fazer esta disputa, fazer os assuntos reverberarem em uma escala maior. A rede colaborativa precisa crescer e disputar a sociedade de verdade e o jornalismo aí tem que estar presente”.
Pablo Capilé, um dos gestores do FdE, destacou que o ativo principal do Fora do Eixo é lidar com os processos de difusão, mas que é preciso ultrapassar a etapa da cobertura institucional, “chapa branca”. Também concordou com a ideia de que reportagens mais críticas, mais jornalísticas, poderiam potencializar a disputa de pautas nos cadernos de cultura dos veículos tradicionais.
A professora da UFRJ, Ivana Bentes também contribuiu com o debate, afirmando que o formato atual do jornalismo é quadrado e pouco atraente e que novas formas de comunicação que trabalhem com multimidialidade e outras linguagens fazem a diferença e interferem na lógica tradicional dos meios de comunicação oficiais.
Além da Pós TV, uma agência distribuidora de notícias ou mesmo uma universidade livre de Comunicação, que pode ou não nascer do Circuito, foram possíveis caminhos apontados para desenvolver o potencial jornalístico do Circuito e suas relações com a sociedade.
Com ou sem mediadores, o jornalismo, e de forma mais ampla a comunicação, é parte da sociedade. E o Congresso abriu o espaço para criticá-lo, avaliá-lo, contextualizá-lo, discuti-lo de forma propositiva, constatando crises e tentando apontar caminhos. Vamos ver no que vai dar.
Texto: Silvana Dalmaso
Fotos: Galeria Fora do Eixo

